Uma Rosa no Lodo

Da janela do trem o trilho corre, a vida passa e conta história, estação por estação. A criança anda pelos trilhos ao longe, passa rápida por meus olhos. Mas o que vejo me causa dor no coração e lágrima no olhar. Era uma garota, devia ter seus oito anos e, numa outra realidade, estar brincando de boneca e se preocupando com as provas da escola. Mas essa menina andava nos trilhos, pude ver.


Tão pequenina, carregava nas costas uma infância miserável e uma sacola duas vezes maior que ela. Tinha em uma das mãos um graveto que fazia de cajado e, quando meus olhos correram por ela e se demoraram, saíram do que catava no chão com o graveto para seu corpo magrelo e negro, cabelos crespos e andar cansado. Ela é só uma criança! - meu coração gritou. A diferença absurda entre a enorme sacola em suas costas e sua frágil aparência me impressionou. Ela parecia carregar o peso da contradição social nas costas. E carregava.

Ela afastou com as mãos encardidas as roupas manchadas de fuligem. Inesperadamente um casaco rosa surgiu em meio aos trapos e estava intacto: só um pouco sujo. Rosa abriu um sorriso satisfeito e puxou a muda de roupa para si. Ficou analisando o casaco por um bom tempo. Parecia ser confortável, talvez devesse experimentar. Colocou o casaco, olhou para si mesma e ajeitou feliz o novo vestuário. Não era todo dia que ela encontrava algo assim. Satisfeita, tornou a colocar a grande sacola nas costas e caminhar.


_ Bonito né Sacolino? É bom de usar também... – falava a esmo. Dizia que era para seu fiel companheiro, a enorme sacola que carregava. Talvez nomeá-lo o tornasse mais leve.


Cantarolou andando por becos sujos, passou por lugares esquecidos por Deus naquela cidade torta. Em cada lugar, recolhendo algo útil e colocando na sacola.


_ Hoje a mãe vai gostar. Tô caprichando na coleta. Acho que o casaco me deu foi sorte, Sacolino! – falou certa hora.


Quem passasse por ali acharia, no mínimo, estranho. Era uma pequena menininha, carregando uma enorme sacola amarela, e falava sozinha. E, ainda, vestia um casaco rosa duas vezes maior que ela.


_ Que é isso garota? – Rosa se sobressaltou quando surgiu na sua frente Alfredo, outro morador de rua. _ Onde cê pegô isso? Roubô foi? – o homem insistia em interceptá-la. Rosa não gostava de Alfredo: estava sempre bêbado.

_ Me deixa bafudo! Sai pra lá.

_ Não chama eu de bafudo não, criança atrevida. Ou te enforco com esse casaco feio ai!

_ Ele não é feio! Tu que é!

_ É Rosa.

_ Igual meu nome, ué!

_ Igual tua cara feia também!

_ A minha é mais bonita que a tua que parece que pegou fogo e caiu do trem! – e deu língua para Alfredo. Ele avançou para ela a passos trôpegos, mas a menina apertou o andar e conseguiu se afastar, mesmo com a sacola pesando mais e mais.

_ Vou colocar fogo é nesse casaco de velha! Criança doida varrida! – e sua voz foi se perdendo na calçada em que acabou se estirando.

_ Antes doida varrida que bêbado caído...! Pelo menos eu varro a cidade. Limpo o que não querem mais. Pego pra mim. Na verdade, to fazendo um favor pra todo mundo – enquanto caminhava, agora longe de Alfredo e mais perto de casa, Rosa resmungava e repetia as palavras de sua mãe.

_ To ansiosa pra ela ver o casaco, Sacolino. Vai achar bonito que eu sei que vai! Vou falar pra ela que achei no meio das ropa pegando fogo e ela nem vai acreditar. Porque aquelas ropa tava pegando fogo, Sacolino? Desperdício de coisa isso... Parece que essa gente rica gosta mesmo de jogar coisa fora. Mas não tem problema né? É bom que nóis cata.


Rosa andou por mais algumas horas até chegar ao que ela chamava de casa. Na verdade, morava de baixo de uma movimentada ponte de carros localizada no bairro Sul da cidade. Quando tirava folga do trabalho de catadora aos domingos, ia brincar com outras crianças de rua que também moravam na ponte, gostava de brincar de ser rica. Falava para todos que morava na zona Sul da cidade e ainda tinha um jardim enorme. E, de fato, tinha: se fôssemos considerar os enormes canteiros entre uma ponte e outra.


Ela tinha que tomar cuidado com a travessia: as pontes eram cortadas por enormes pistas de velocidade. Os carros não toleravam transeuntes. Ainda mais se estes carregassem uma enorme sacola, que parecia se mover sozinha de tão pequenina que era a menininha que a carregava.


_ Ta cheia hoje! Dia foi bom hein? – Sua mãe saíra de baixo da ponte e veio saudá-la. Tinha os cabelos crespos amarrados com um elástico no alto da cabeça, os olhos cor de mel e dentes amarelos encardidos. Rosa ficou feliz de vê-la sorrir. Mas, a medida que se aproximou, viu morrer o sorriso da mãe. Ela olhava fixamente para o casaquinho rosa.

_ Que isso garota?

_ O casaquinho? Achei mãe! Tava pegando fogo, acredita? Salvei ele! Não é bonito? – A mãe pegou a sacola da garota e colocou em suas costas. E então, olhou para o casaco com desdém.

_ É feio pra cacete. Parece de velho. Parece de avó.

_ Mas... era da vó! – tentou comover a mãe. Mesmo sem Sacolino consigo, podia jurar que suas costas ainda pesavam: mas agora com as palavras da mãe.

_ Que era da vó o que? Ta mentindo pra mim?

_ Era da minha avó sim mãe! Acredita!

_ Como era da tua avó se eu nem conheci minha mãe, pirralha?


Rosa pensou no que falar: mas deu-se por vencida. Elas alcançaram a cobertura da ponte. Havia caixas de papelão estendidas no chão, panos velhos pendurados em vários lugares e um odor forte de urina. Rosa não gostava do cheiro, mas a vista para o mar compensava: após as grandes pistas estava uma praia da zona Sul da cidade. Velhinhos de bonés brancos passeavam com pequenos cachorrinhos quase toda hora e Rosa gostava de observar.


_ Tu não vai ficar com isso não. Me dá. – Sua mãe estendeu a mão para o casaco. A menina fechou a cara.

_ Eu não! Eu que achei, é meu! – e Rosa correu para longe da mãe, perto da estrada.

_ Que que ta acontecendo? – Uma mulher baixinha, gordinha e de aparência muito suja, chamada Sônia, perguntou. Ela era uma das que também ficavam naquela ponte. Estava esquentando alguma coisa numa latinha de sardinha enferrujada.

_ Essa pirralha achou um casaco horrível e quer ficar.

_ Deixa a criança...

_ A filha é tua, porra? Não é. Então deixa que eu cuido! – até que Rosa gostava da postura autoritária que a mãe tomava quando o assunto era elas duas. Por diversas vezes as salvou de situações perigosas na rua assim. Mas, particularmente agora, queria que a mãe ouvisse Sônia.

_ Vem aqui Rosa! Tu não vai ficar com isso! – E agarrou a menina, que se debatia tentando livrar-se da mãe.

_ Me deixa! Me solta! Sua bruxa!

_ Tu me respeita garota! Tira logo isso! – E fazia força para tirar o casaco de Rosa: até que conseguiu. A menina já chorava, e suas lágrimas ficavam marcadas na face suja de terra, de dia de trabalho.

_ Mas mãe... ele deu sorte hoje... ele... – tentava justificar seu amor pelo casaco aos soluços. Na verdade, nem ela sabia porque queria tanto aquele bendito pedaço de pano.

_ Vou jogar é isso fora. Vai que é mandinga!

_ Mas a gente já é mendinga! – Rosa gritou, mas a mãe a ignorou e jogou o casaco longe.

O pedaço de pano rosa claro voou e foi parar no meio da estrada. Alguns carros passaram velozes, até que o casaquinho, antes inofensivo em meio às cinzas, acabou por cair no vidro dianteiro de um carro de passeio e prender nos para-brisas. O motorista se desesperou, buzinou e perdeu a direção. Tudo aconteceu muito rápido.

Rosa viu um carro bater em outro e ser lançado para o canteiro. Na direção de sua mãe, que estava mais a frente. E ai, seus olhos vidraram na cena da batida, de sua mãe sendo atingida e arremessada para longe e o carro rodopiando na pista, cada vez mais destruído.


O barulho era ensurdecedor.



Autora: Juliana Líbano

Categoria: Conto Literário

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