O Cárcere

_ Ei! Me tira daqui! Me deixa sair!


Ela Grita. Pede clemência. Jura não me fazer mal, nem me decepcionar. Diz não entender porquê eu a aprisionei.


_ Eu vou ser a melhor escritora que eu puder! Me dá uma chance!


Posso ouvi-la argumentar enquanto subo as escadas e saio do porão. A ignoro. Por um, dois dias. Ela insiste em gritar, pedir que a solte. Cansada dos gritos, fecho a porta. E assim ela permanece por alguns meses. Anos.


A medida que o tempo passa, ela vai ficando cada vez mais silenciosa. Os gritos diários por resgate viram semanais. Uma vez ao mês. E assim vão, decaindo até sumirem. Quase a esqueço. Vez ou outra olho para a porta que dá no porão onde ela está. Em alguns dias o olhar é apenas de constatação. Em outros ele se demora.


Anos mais tarde, decido visitar sua cela, descer ao porão. Enquanto desço, as escadas rangem. Sinto minha respiração pesar no peito. Ao chegar no fim da escada, visualizo a cela. Ela está jogada no chão feito um coelho abatido. No entanto, assim que me vê chegar, levanta do chão, num salto. Nos olhos desbotados surge um lampejo de esperança. Se debruça nas grades.


A observo. Os cabelos, volumosos e compridos, estão desgrenhados num corpo débil e magro. As unhas, corroídas e sujas. Tento lembrar qual delito absurdo ela teria cometido para que eu a jogasse ali, às traças, mas não consigo recordar. Minha garganta se torce num nó. Meus olhos começam a arder e a transbordar e logo estou soluçando. O semblante dela, no entanto, em momento nenhum me olha com raiva.


_ Por favor, me deixa... te ajudar.


Sua voz já sai rouca, perdida há muito no cansaço que a arrebatou durante os anos de prisão.


Pergunto-me como ela, num estado tão lastimável, ainda pensa em me ajudar, ao invés de pedir por socorro. Meu coração acelera, se enche com uma esquecida ternura. E, então, tiro a chave do bolso. Sempre esteve lá, pesando meu caminhar.


E destranco a cela, libertando-a.


Ela cai nos meus braços. Fraca, porém feliz. E chora. Diferentemente de mim, chora de felicidade. Ficamos ali, abraçadas por um bom tempo. Até que ela diz:


_ Obrigada por se libertar.




Autora: Juliana Líbano

Escrito em: 21 de setembro de 2019

Categoria: Conto Literário



Considerações

O Cárcere é um conto literário escrito em 2019 por mim, que marca o início de meu reencontro com a escritora que sempre existiu aqui dentro e que eu, por muito tempo, aprisionei. Os motivos? Inúmeros, que aos poucos pretendo retomar aqui, publicando mais contos dentro dessa temática. Espero que gostem e obrigada por lerem.




Tags: contos, conto literário, literatura brasileira, cárcere, cárcere privado, prisão, calabouço, bloqueio criativo, texto, escrita, escritor, escritora, liberdade, criatividade

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